Ação climática: indiscutível multilateralismo

Por João Gomes Cravinho, Embaixador da União Europeia no Brasil

Furacões, inundações, incêndios e secas sem precedentes irrompem todos os dias na nossa consciência coletiva por intermédio das notícias que nos chegam do mundo. A relação de cada evento individualmente com as alterações climáticas é difícil de estabelecer, mas o sentido geral é absolutamente claro: estamos a vivenciar os efeitos das alterações climáticas, estes efeitos são brutalmente negativos, e as causas estão associadas aos gases de efeito estufa que a humanidade está a produzir.

O resultado desse desarranjo climático é que os avanços do desenvolvimento obtidos ao longo das últimas décadas estão em risco. As ambições que foram coletivamente assumidas na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável não poderão ser cumpridas se não alterarmos os nossos caminhos. Infelizmente. Citando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres “as alterações climáticas avançam mais rápido do que nós”.

Estamos num momento decisivo em que é necessário uma resposta firme de todos e, sobretudo, das principais economias, incluindo o Brasil que, juntas, respondem por cerca de 80% das emissões globais. A União Europeia promove o diálogo e a cooperação entre as principais economias, por meio das suas Parcerias Estratégicas para a Implementação do Acordo de Paris, um programa trienal com financiamento de 25 milhões de euros mobilizado pela UE e pela Alemanha. O Brasil é parte fundamental dessa cooperação e parceiro com quem temos várias ações de cooperação em temas estratégicos para o desenvolvimento sustentável do país, como empreendedorismo de baixo carbono, finanças verdes, desenvolvimento urbano sustentável, inclusive, mobilidade e eficiência energética, energias renováveis, gestão e proteção das florestas e dos recursos hídricos.

Estamos perante um desafio sem precedentes na história da humanidade e para o resolver todos temos um papel a desempenhar. Neste momento, deparamo-nos com uma transição lenta e difícil entre um sistema econômico antigo, assente em combustíveis fósseis e um novo sistema mais sustentável, sem consequências ambientais e que criará milhares de empregos, assim como estimulará inovação em todos os níveis. A União Europeia está na liderança para limitar as alterações climáticas.

Queremos uma transformação econômica global com o desbloqueio do potencial das renováveis, tornando a agricultura mais sustentável, descarbonizando os meios de transporte e redesenhando o mercado energético. Essa transição criará oportunidades para indústrias, investidores e empresas inovadoras e mais benefícios para os nossos cidadãos, por meio da criação de emprego, de produtos inteligentes, de um ar mais puro e do fornecimento energético mais seguro. Esta é a nossa estratégia: assente num crescimento inteligente, sustentável e inclusivo à medida que construímos uma economia limpa, competitiva, flexível e com baixas emissões de carbono.

Para alcançarmos essa solução climática global, é fundamental a cooperação internacional. Esse é o caso mais evidente e indiscutível da necessidade do multilateralismo. Trabalhando em conjunto podemos criar um mundo mais seguro e sustentável para todos nós e para as gerações futuras. Vamos precisar da contribuição de todos, desde a Organização das Nações Unidas (ONU) e organizações regionais até estados, cidades e cidadãos, bem como formadores de opinião globais a líderes comunitários.

A abordagem pioneira da União Europeia tem o objetivo de fomentar as políticas apropriadas, associando-as à atribuição de recursos à inteligência climática. Estamos a intensificar a cooperação internacional em matéria de mudança climática, porque acreditamos que 2018 é o ano crucial para a implementação do Acordo de Paris. Agir agora irá beneficiar a nossa economia e contribuir para um futuro seguro e sustentável para o nosso mundo. A União Europeia conta com o Brasil, como parceiro e ator essencial na crescente conscientização e mobilização política mundial no que diz respeito aos desafios ambientais globais.

(Artigo coassinado pelos embaixadores dos Estados-Membros da União Europeia no Brasil)