Adeus à Brasília

Polônia33Embaixador Andrzej Braiter se despede da cidade depois de quatro anos à frente da embaixada da Polônia. Ele embarca amanhã (20) para Varsóvia, mas deixa um pedaço do coração na capital federal. Aqui o diplomata viveu parte da adolescência e da juventude, na primeira vez veio para o Brasil, aos 13 anos. Morou na cidade por nove anos, estudou e se formou na Universidade de Brasília, UnB. Depois voltou para seu país e trinta anos depois retornou a capital federal como embaixador da Polônia.

Nessa segunda-feira (18), às vésperas de pegar o avião, Braiter deu uma entrevista exclusiva para a revista Embassy Brasília. O embaixador faz um balanço positivo de seu trabalho à frente da sede diplomática polonesa, falou da importância do encontro dos chefes de estado dos dois países, da ampliação das parcerias acadêmicas e da também da parceria do Brasil com o chamado V4, a aliança entre quatro países da Europa Central (Hungria, Polônia, República Checa e Eslováquia) para fins de cooperação. Segue a íntegra da entrevista.

Embassy Brasília – Qual o balanço que o senhor faz do trabalho nesses anos em missão no Brasil?

Andrzej Braiter – No meu entender é um balanço altamente positivo. Todos os servidores da embaixada estavam envolvidos há muito tempo nos nossos projetos que abrangiam todos os campos de vida, de cultura, literatura, arte, design industrial, passando pela escultura, passando pela simples economia, cooperação econômica entre os dois países, sem mencionar as relações políticas que envolvem vários campos também. Não deixamos de trabalhar no campo de ciência e tecnologia; organizamos três conferências, duas na UnB e uma na Polônia, o que aproxima tanto as agências espaciais, como também os departamentos técnicos das universidades. Enfim, é uma gama muito vasta de assuntos desde simples aos mais complexos como da cooperação militar ou da indústria de defesa. Tudo isso foi possível graças a uma visão ampliada conseguida nesses últimos quatro anos. Houve uma receptividade excelente da parte brasileira e diplomatas do Itamaraty, brasileiros, que contribuíram imensamente com esse desenvolvimento das relações. Tivemos avanços nos acordos bilaterais, algumas visitas; devo mencionar a do chefe de estado dos nossos países se encontraram em Varsóvia, quando presidente Temer era ainda vice. Ele foi acompanhado por seis ministros que puderam recapitular as relações. Tivemos a presidência do Grupo Visegrád ou V4, composto por Hungria, Polônia, República Checa e Eslováquia, agora sob a presidência húngara. Realizamos um trabalho, os quatro países e o Brasil. Isso tem uma implicação e todos os campos; cooperação acadêmica, bolsas de estudos e na cultura. Tivemos óperas brasileiras nos teatros da Europa. Recapitulamos as traduções existentes na literatura dos países, desde 1945, o que foi mais traduzido, o que foi traduzido e o que não foi traduzido. Uma dica importante para as editoras onde devem exercer mais pressão ou aumentar sua atividade. Enfim, os dois povos nesse tempo se conheceram melhor. Esse é o objetivo da diplomacia.

Embassy Brasília – O senhor foi condecorado com a Ortoga de Gran Cruz , com a da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul e com o Título de Cidadão Honorário de Brasília. Qual a importância desse reconhecimento do povo brasileiro?

A senhora disse muito bem, é do povo, eu encaro não como das autoridades parlamentares e do governo do Brasil. A Cruzeiro do Sul, apesar, ser dada por decreto do presidente da república. Fico honrado, lisonjeado, agradecido, realizado pessoalmente. Trabalhar em prol dessas duas culturas é importante porque fui criado aqui. No Planalto Central estudei, fiz a universidade e até trabalhei em várias funções, entre as mais destacadas a de professor de escola pública no Guará II. Com essa terra, como rapaz daqui, me identifico em muitos sentidos. Essas medalhas são a forma máxima de reconhecer um diplomata estrangeiro. Tenho perfeita consciência disso, o que me convence que fiz um bom caminho e vou continuar nele.

Embassy Brasília – Quais os planos do senhor para 2018?

Dependendo da política, do quadro do meu ministério de relações exteriores, se houver espaço para mim, eu sempre posso servir a ele. Senão, vou pelo outro caminho, mas sempre trabalhando no âmbito das relações que eu jamais vou esquecer ou romper. Muito pelo contrário, vou cultivar. Talvez possa dar minha contribuição modesta nas relações entre os dois países num outro campo, certamente não será em um campo de futebol porque sou velho e um pouco inválido. Apenas posso me vestir de jogador, nada mais. (brinca por estar vestido com a camisa da seleção brasileira). Também há a possibilidade de ir para a iniciativa privada, além de fazer traduções, farei alguns artigos, vou escrever sobre a história do Brasil que, no passado, já lecionei História do Brasil. Ajudando assim os empresários a conhecerem os dois países, entenderem e explorarem as possibilidades existentes aqui.

Embassy Brasília – O senhor participou recentemente de uma conferência de Ciência e Tecnologia com a Polônia e o Brasil. O que os dois países têm a oferecer nessas áreas?

Os dois países exploram o mundo, tem pessoas capacitadas, jovens engenheiros, nas áreas das exatas. Os dois países têm algumas fraquezas ainda e precisam desenvolver as tecnologias em determinados setores onde gostariam de estar presentes, mas ainda não possuem a tecnologia. Eles podem se ajudar mutuamente para alcançar essas metas que visam, no fundo, melhorar o futuro do cidadão de país, para que a vida das futuras gerações seja mais fácil.

Embassy Brasília – Na área de Comércio Exterior, o que o senhor destacaria nas relações bilaterais?

O Brasil está saindo agora da crise, abrindo um pouco a cooperação com o mundo externo, criando essa competição, o que nunca é fácil já que ficou tanto tempo tão fechado. Para competir no mundo é necessário um sacrifico, suor, lágrima e muito trabalho. Defender as conquistas sociais é muito importante, mas é preciso se adaptar aos desafios do mundo. Podemos reduzir a semana de trabalho de cinco dias, a quatro ou a três, mas qual será o resultado final? Para produzir mais e mais barato, artigos melhores, como o Brasil está fazendo agora, requer mão de obra especializada, educada e formada. É um processo em que os dois países podem se ajudar mutuamente. Somos do país do tamanho de Minas Gerais com o dobro da população. Um país dinâmico que, nesse mundo globalizado, quer ocupar o seu espaço, seu ligar e tirar vantagens sem afetar a posição de ninguém. A mesma coisa acontece com o Brasil. Procura assumir um papel o mais preponderante, o mais destacado do seu território. È um gigante, sem dúvida. Os dois países trabalham naquele domínio onde se complementam.  No passado, nos anos 80, a cada dois dias, entrava nos portos do Brasil um grande barco da marinha polonesa com produtos. Isso no passado. A cooperação era tão avançada, ativa e dinâmica. Seria muito bom voltar a essa etapa, apesar de que isso seja difícil. Mostra, no entrato, que nos anos 80 havia essa possibilidade de os dois países trabalhem de uma forma muito mais intensa que hoje em dia. O Brasil tem uma quantidade enorme de produtos de qualidade boa, preços às vezes competitivo, às vezes não. São produtos muito apreciados, matérias primas e não só isso. A Polônia é um grande comprador dos aviões da Embraer.

Embassy Brasília – O senhor participou da assinatura de contrato para construção de uma grande rede hoteleira em Natal, Rio Grande do Norte, por uma empresa polonesa. O que isso significa para os dois países. Existem outras empresas da Polônia no mercado brasileiro fazendo grandes negócios?

Esse projeto foi preparado durante anos, criada toda uma infraestrutura para trazer outros investidores estrangeiros, não necessariamente poloneses. É uma operação multifacetada, companhias globais de capital estrangeiro; uma operação modelo que deve abrir não só o mercado brasileiro, mas os olhos de muitos empresários no mundo porque vem para o Brasil a melhor e a mais conceituada rede hoteleira do mundo, fazendo do Rio Grande do Norte o destino número um da América Latina. Tudo depende da vocação dos investidores poloneses, determinação e força de vontade; as facilidades criadas pelo governo que são fundamentais. O importante é não criar dificuldades para entrada dessas empresas no país e isso começou a ser feito. Não há mais dificuldades como antes, o que faz os empresários encararem o Brasil com mais otimismo.

Embassy Brasília – O que mais o senhor gostaria de registrar?

Deixo na minha querida cidade de Brasília um marco pessoal. Construí dois monumentos, um em cima da L4 Marechal Józef Piłsudski , homem que devolveu a independência à Polônia, e uma grande cientista , Marie Skłodowska Curie, Prêmio Nobel de Química e Física. Haverá também uma praça com o nome da Polônia no jardim Botânico e deixei um drink no Bier Fass do Gilberto Salomão com meu nome que espero seja um marco de referência aqui para os apreciadores de bebidas fortes.  O drink leva vodka, groselha e um pingo de picante que pode ser tabasco, três gotinhas. Enfim, foi muito bom voltar às minhas raízes de Brasília.

Embaixador Andrzej e Katarzyna Braiter, embaixatriz e cônsul da Polônia.
Embaixador Andrzej e Katarzyna Braiter, embaixatriz e cônsul da Polônia.

Polônia18

Katarzyna Braiter, Andrzej Braiter
Katarzyna Braiter, Andrzej Braiter