Embaixadores árabes e africanos discutem na Bahia oportunidades de investimentos

Ana Cristina Dib

Embaixadores árabes e africanos estão em missão conjunta à Bahia e se reuniram na tarde desta terça-feira (19), em Salvador, com o vice-governador João Leão (2º da dir. p/ esq. na foto acima) e parte do secretariado do estado. Os diplomatas e os representantes do governo baiano discutiram a criação de um grupo de trabalho para explorar as oportunidades de negócios e cooperação entre a Bahia e as nações do Oriente Médio e África, com base em uma proposta feita pelo presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Rubens Hannun, que participou do encontro.

“Temos certeza que um estado que promove a felicidade tem muitas oportunidades”, disse Hannun, referindo-se ao bordão “Bahia, Terra da Felicidade”, utilizado no estado. “Para colocar isso em prática (ações de cooperação), eu gostaria de sugerir a formação de um núcleo de trabalho entre a Câmara Árabe e a Bahia”, acrescentou.

Hannun propôs que este grupo atue com três focos: a realização de uma exposição para divulgar no estado produtos, destinos turísticos e a cultura de países árabes e africanos, em local a ser indicado pelo governo; a realização de uma missão baiana ao mundo árabe para promover produtos, inovações, cultura e o turismo do estado; e a inclusão da Bahia em um estudo sobre as complementariedades do Brasil e das nações árabes na área de segurança alimentar, em desenvolvimento pela Câmara Árabe.

“Podemos verificar neste estudo, por exemplo, como implementar ligações marítimas para facilitar a logística de transporte de alimentos”, afirmou Hannun. O Brasil é grande produtor de alimentos e a Bahia tem um dos maiores índices de produtividade por hectare do País, ao passo que a maior parte do mundo árabe precisa importar alimentos em grande quantidade.

Hannun indicou o diretor de Inteligência de Mercado da Câmara Árabe, Tamer Mansour, para coordenar a criação do grupo de trabalho pelo lado da entidade, e João Leão indicou o secretário da Casa Civil, Bruno Dauster, para fazer o mesmo do lado do governo estadual. “Tudo o que o senhor falou nos interessa, temos amplo interesse no desenvolvimento econômico e nas parcerias internacionais”, disse o vice-governador a Hannun.

Como exemplo, Leão contou que fez recentemente uma viagem à China e à Índia, onde foram firmados protocolos de intenção como os governos e empresas destes países com vistas a promover investimentos no estado. “A Bahia é um celeiro de oportunidades”, ressaltou.

Dauster, por sua vez, destacou algumas das principais atividades econômicas da região, como o Polo Petroquímico de Camaçari, o maior da América Latina, a indústria automobilística e o agronegócio. À ANBA, ele disse que estes três setores têm forte atuação de empresas estrangeiras, como a Basf e a Dow na área química, a Ford no ramo automotivo, companhias europeias na produção de carne, leite, açúcar e etanol, e empresas chinesas e coreanas nos setores de energia e telecomunicações.

Ele afirmou que há projetos que podem interessar a investidores árabes, como uma fábrica de fertilizantes que a Petrobras pôs à venda, uma participação acionária na Refinaria Landulpho Alves (RLAM), a segundo maior do País, também colocada à venda pela petrolífera brasileira, e eventual participação em um estaleiro no estado que tem capital japonês.

Na seara do turismo, o secretário de Turismo, José Alves, disse que uma de suas missões é conseguir aumentar o número de voos para o estado. Ele contou que a companhia aérea de Cabo Verde começa a voar para Salvador este mês, e pediu que os embaixadores ajudem a dar início a negociações do estado com empresas aéreas de seus países.

Ligações

Os diplomatas destacaram as profundas ligações da Bahia com os árabes e os africanos. “Nossos ancestrais vieram e ficaram nesta terra, sentimos que estamos entre familiares”, disse o decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil, Ibrahim Alzeben, que é embaixador da Palestina. “Não estamos aqui apenas à procura de investimentos e negócios, mas também em busca de nossas raízes árabes e africanas, que fundamos há mais de 500 anos”, acrescentou.

Salvador é considerada a cidade mais africana do Brasil, pois a maioria da população é afrodescendente. “Temos uma história e uma cultura comuns”, afirmou o decano do Conselho do Embaixadores Africanos, Martin Mbeng, que é embaixador de Camarões. “Esperamos que esta visita possa fortalecer estas ligações. Encorajamos os baianos a viajarem à África e aos países árabes como turistas, e também para ver nossas oportunidades de investimentos”, declarou.

A jornalistas, Alzeben acrescentou que nesta quarta-feira (20) haverá um evento organizado pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), no qual os embaixadores se reunirão com empresários locais e poderão detalhar possibilidades de ampliação do intercâmbio econômico, “uma oportunidade única”.

Também a jornalistas, Hannun destacou a existência de oportunidades em segmentos como os de frutas, carnes, petroquímica e energias renováveis. “Temos que promover ações para que o intercâmbio seja sustentável”, declarou.

Casa de Angola

Mais cedo, os diplomatas visitaram o centro cultural Casa de Angola, no centro histórico de Salvador, a convite do embaixador angolano Nélson Cosme, que integra a delegação. A instituição existe há 20 anos e fica num sobrado construído na primeira metade do século 18.

Os embaixadores fizeram uma visita guiada pelo diretor da Casa, Benjamim Alexandre Sabbby. Há uma biblioteca com publicações sobre Angola e a África em geral, um museu com artefatos religiosos, obras de arte popular e objetos de uso cotidiano e cerimonial nas aldeias do país, além de uma exposição de pinturas da artista plástica angolana Arlete Marques.

 “A Casa está no plano turístico de visitas à Bahia e Salvador. Além de turistas, recebemos escolas e acadêmicos que pesquisam a história e a literatura da África”, disse Nélson Cosme. “Este local representa todos nós”, destacou Alzeben.

Na reunião com vice-governador, Alzeben lembrou que numa visita anterior feita por diplomatas árabes ao estado, em 2013, foi discutida e criação de uma Casa Árabe em Salvador, mas que o projeto não saiu do papel. João Leão pediu à secretária de Cultura, Arany Santana, que verifique a se há algum imóvel disponível no centro histórico da cidade que possa ser cedido para este fim. “vamos acelerar este processo”, afirmou.

Integram a delegação também diplomatas da Jordânia, Líbia, Argélia, Egito, Iraque, Mauritânia, Marrocos, Tunísia, Omã, Sudão, da Liga Árabe, da Costa do Marfim, Cabo Verde, Botsuana, Mali, Namíbia, Malaui, Gana, Togo, Tanzânia, Benin, República Democrática do Congo e Moçambique, além do diretor-geral da Câmara Árabe, Michel Alaby.