Pêra-Manca. De Pedro Álvares Cabral a um dos vinhos de topo portugueses

Chegou a custar 1.250 escudos na década de 1990. Atualmente, é um dos vinhos tintos mais famosos do Alentejo e mais caros no país. O Pêra-Manca tem nova colheita e são só 20.000 garrafas.

Observador

A mesa está outra vez posta. O jantar, à semelhança do que aconteceu aquando do lançamento da colheita de 2013, é servido à luz das velas debaixo de um teto adornado por arcos. As portas da Adega da Cartuxa – Quinta de Valbom, antigo posto jesuíta em Évora onde já no século XVIII funcionava um lagar de vinho, voltam a estar abertas para receber jornalistas e críticos de vinhos, e não só, para provar o “novíssimo” Pêra-Manca tinto 2014. Um dia de provas e visitas vai culminar nos segundos que demoram a bebericar um vinho que, à saída da adega, vai ter o preço de 220 euros. Ao mercado caberá a função de o inflacionar ao sabor da dinâmica procura-oferta.

Falar de Pêra-Manca é falar de um antes e depois que, juntos, ajudaram a projetar a marca como um dos vinhos de topo em Portugal — falando, neste caso, exclusivamente de vinhos tranquilos. Reza a história, este será o vinho que, segundo consta no comunicado de imprensa, aparece citado em crónicas do século XVI, tendo sido eleito “para selar o encontro entre Pedro Álvares Cabral e os indígenas, aquando da sua chegada ao Brasil em 1500”.

O Pêra-Manca — cujo nome estará originalmente associado ao terreno onde estavam os vinhedos, um barranco com pedras soltas que mancavam, que terá pertencido aos frades do Convento do Espinheiro, em Évora, em tempos idos — está na posse da Fundação Eugénio de Almeida (FEA) desde o final da década de 1980. A marca foi oferecida pela Casa Agrícola José Soares, que no século XIX produziu um vinho com este nome, com o compromisso de servir de rótulo ao melhor vinho aí elaborado. O Cartuxa Garrafeira 1987, primeiro e único de seu nome, pode ser considerado uma espécie de “Pêra-Manca edição zero”, ele que cedeu lugar à marca que hoje conhecemos.

O Pêra-Manca acaba por ganhar uma vida nova quando entra na posse da fundação. O hiato de tempo entre as duas empresas [Casa Agrícola e Fundação Eugénio de Almeida] é suficientemente grande para que esta marca não estivesse na memória do consumidor”, diz José Mateus Ginó.

José Mateus Ginó, atualmente presidente do conselho executivo, entrou para a Fundação Eugénio de Almeida em junho de 1999. Meses depois era lançada uma nova colheita de Pêra-Manca, a qual propôs que chegasse ao mercado a custar quatro vezes mais do que o preço então estipulado. “O Pêra-Manca tinto da colheita anterior custava 1.250 escudos. Propus à fundação que multiplicasse o valor por quatro. O assunto gerou, naturalmente, alguma discussão, mas acabámos por ir por esse caminho e foi realmente um ano em que o Pêra-Manca valorizou muito”, recorda ao Observador. Na altura, a fundação não tinha uma estrutura comercial e o Alentejo não estava associado à quantidade de marcas que hoje existem — em jeito de contextualização refira-se que a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana foi criada em 1989 e a primeira colheita de Pêra-Manca tal qual a conhecemos data de 1990.

A valorização do vinho, que chega agora à sua 15º colheita, foi acontecendo com o passar do tempo. José Mateus Ginó refere o “trabalho muito sério por detrás de um vinho de exceção”, que “incorre em gastos muito superiores relativamente a um vinho mais comum”. Mas Pêra-Manca não é só tinto. É branco também. A diferença de valor de mercado de um e de outro é bastante significativa — a edição mais recente do branco, de 2016, custa cerca de 45 euros. Pedro Baptista, o enólogo, assinala que a disparidade de preços está sobretudo relacionada com dois fatores: os níveis de produção das vinhas brancas e tintas — sendo que as tintas usadas para o Pêra-Manca têm uma capacidade produtiva muito baixa, estando por isso associadas a custos maiores — e a perceção do consumidor. “Tradicionalmente, os vinhos brancos são sempre menos valorizados”, atesta Pedro Baptista.

Curiosamente, no mercado tem-se registado um interesse crescente face aos vinhos brancos, motivo pelo qual as últimas versões do Pêra-Manca branco e do Cartuxa branco “vão entrando em rutura de stock”. “O Cartuxa branco 2017 está, neste momento, a entrar em rutura de stock e só vamos apresentar a colheita de 2018 no mês de julho”, confirma o enólogo.

Um fenômeno também no Brasil

Se o trabalho de divulgação ajuda na construção da marca, os prémios também — recentemente, o Pêra-Manca tinto 2005 foi eleito “um dos 30 melhores e mais desejados vinhos do mundo” segundo a Vivino, conhecida aplicação de vinhos que já conta com 35 milhões de utilizadores (nesta lista estão outros rótulos nacionais). Aquele que já é um dos tintos mais famosos de Portugal, com apenas 30 anos de história, tem no Brasil o seu principal mercado, sendo que 60% das pessoas que visitam o enoturismo da Cartuxa, em Évora, são brasileiras. Entre aqueles que conhecem bem os vinhos sob a égide da Fundação Eugénio de Almeida são conhecidas algumas histórias que atestam a devoção por este vinho em particular: como daquela vez em que uma sommelier brasileira chamou Pedro Baptista, o enólogo, de “Papa”. Dos vinhos, entenda-se.

O Brasil foi também o primeiro mercado para onde se exportaram, “com algum volume”, vinhos da fundação, confirma José Mateus Ginó. A Adega Alentejana, que a partir de 1998 “abre as portas do Brasil” para vinhos do Alentejo, região de origem dos fundadores, foi “em termos ideológicos criada à porta desta adega”, assegura o presidente do conselho executivo, referindo-se à casa onde são criados os lotes da FEA. “Fomos o seu primeiro cliente. A Adega Alentejana entrou no mercado brasileiro com as marcas da fundação. O espaço para crescer era imenso, sendo que ainda hoje a quota-parte de exportação é diminuta face à produção de vinho em Portugal — nessa altura ainda era mais.” A intenção, diz José Mateus Ginó, foi desde logo começar a explorar mercados para, no futuro, existir espaço para crescer de uma forma sustentada.

O objetivo da fundação, tendo em conta o futuro do Pêra-Manca, não passa por crescer em volume, sendo que o “mais normal” será a marca crescer em valor. A colheita de 2013, lançada em 2017, foi a de menor quantidade desde que o vinho viu a luz do dia — 19 mil garrafas. A de 2014 conta com cerca de 20 mil, colheita que, em janeiro deste ano, o jornal brasileiro Estadão descrevia como um “vinho fresco”. A acidez em boca é comprovada nos finais de março, aquando do lançamento oficial na Adega da Cartuxa – Quinta de Valbom.

O ano foi difícil, relata Pedro Baptista, diante das dezenas de convidados, e o final da vindima pregou um susto a quem faz do vinho profissão. As chuvas intensas, que chegaram relativamente cedo, a meio de setembro, foram fator temporário de preocupação, mas, no final, esta foi “uma vindima francamente boa”. A primavera amena contribuiu para uma maturação “com todo o tempo para acontecer” e trouxe frescura e concentração à colheita de 2014. Contrariamente ao que costuma acontecer, este vinho contou com a predominância da trincadeira ao invés da casta aragonês, sendo que as vinhas de onde provêm as uvas têm mais de 35 anos. Refira-se ainda que o vinho esteve 18 meses em balseiros de carvalho francês e 36 meses em garrafa nas caves do Mosteiro da Cartuxa. A capacidade de evolução é uma promessa que deverá ser facilmente cumprida.